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À medida que avançamos na idade, são muitos os desafios que temos que enfrentar: a morte de familiares e amigos, problemas de saúde, adaptação à reforma, entre muitos outros.

A SIDA na Terceira Idade

O relato nos Estados Unidos em Junho de 1981 dos primeiros casos do que foi descrito um ano após sob a designação de Síndroma de Imunodeficiência Adquirida, com o acrónimo de SIDA, e a identificação do seu agente em Maio de 1983, denominado vírus da imunodeficiência humana (VIH), descoberta que valeu ao grupo do Instituto Pasteur de Paris a atribuição do Prémio Nobel da Medicina em 2008, alarmou o muindo ocidental, pois não só a extensão da epidemia era cada vez maior, afectando predominantemente adultos jovens, até então saudáveis, como o seu diagnóstico correspondia a uma sentença de morte pois nenhum tratamento disponível na época era eficaz, já que rapidamente o vírus se tornava resistente aos fármacos prescritos.

Em meados dos anos 90 do século passado, os progressos no diagnóstico e a disponibilidade de novos medicamentos vieram pela primeira vez trazer uma esperança no prognóstico da doença. Nos anos que se seguiram foi enorme o avanço no tratamento da SIDA, não só disponibilizando-se novos alvos terapêuticos, como atenuando-se os seus eventuais efeitos adversos e reduzindo o número de comprimidos prescritos, óbice que também contribuía para uma má adesão ao tratamento, que então implicava a toma diária de mais de uma mão cheia de comprimidos, para regimes de poucos comprimidos, como as normas internacionais hoje recomendam. A infecção é pois presentemente encarada, não como uma doença fatal a curto ou médio prazo, mas como uma doença crónica, como tantas outras, em que embora não se tenha conseguido a cura biológica da infecção, se torna necessário o tratamento por toda a vida, obrigando por isso a uma adesão à terapêutica. Essa mudança radical do prognóstico levou a que a doença seja presentemente vista de modo diferente, perdido o temor que a acompanhou nas primeiras décadas da sua história.

Um dos novos aspectos surgidos nas últimas décadas é o aumento de casos em indivíduos com mais de 50 anos, incidência de escassa relevância nas primeiras décadas da infecção. À circunstância da disponibilidade dos novos tratamentos, permitindo uma sobrevivência quase idêntica á da população não infectada, já que, como se referiu, a SIDA se transformou numa doença crónica, há que acrescentar as novas infecções nesse grupo etário, a que acresce um maior atraso no diagnóstico por os profissionais de saúde não encararem esse diagnóstico, na maioria das vezes fruto de contágio por via sexual. Recorde-se que os profissionais de saúde muitas vezes não inquerem os doentes sobre a sua actividade sexual, nem sobre eventuais comportamentos de risco, num tempo em que a utilização de fármacos estimuladores sexuais é cada vez mais frequente. Por outro lado prevalece ainda o preconceito que a SIDA é uma doença dos jovens. As alterações sociais registadas nas últimas décadas, levando muitas vezes a uma vivência solitária favorecem a possibilidade de contágios sexuais ocasionais, para além do estigma da infecção ser maior nesse escalão etário. A pesar negativamente na evolução acresce ainda a imunosenescência, ou seja a perda de imunidade que acompanha o envelhecimento, levando a que a infecção no sénior quando não tratada, tenha uma evolução mais rápida. De referir ainda, que na mulher em menopausa, as alterações da mucosa genital que se observam, tornando-a mais friável, predispõem a um maior risco de contágio.

A infecção é pois cada vez mais comum em indivíduos com mais de 50 anos, panorama que se regista não apenas nos Estados Unidos, como na União Europeia. Assim e como exemplo do que se pode agora chamar uma epidemia silenciosa, enquanto nos países da UE em 2006 a infecção por VIH acima dos 50 anos correspondia a 25% do total de casos, em 2014 era já 44% (Fonte:Eurosida); também numa coorte suíça de doentes com infecção, a percentagem de doentes com mais de 50 anos era em 2006 de 25%, valor que em 2014 se tinha também elevado para 44%. Em Portugal o panorama é também similar: pois enquanto entre 1983 e 1999, 10,7% do total de casos de SIDA tinha idade igual ou superior a 50 anos, em 2013, esse valor era de 34,2% (Fonte: Documento SIDA, nº 145, INSA, 2014). Tudo isto permite pois considerar que a infecção VIH é já uma patologia a encarar no diagnóstico de muitas das situações clínicas que podem ocorrer no adulto. Um outro aspecto da infecção no sénior é que o processo de envelhecimento é mais precoce nesses doentes, muitas vezes associado a outras patologias comuns nos seniores, particularmente do foro cardio- vascular, neuro-cognitivo, renal, osteoporose e diabetes, entre outras, o que justifica a prescrição de fármacos, que podem ter interacções ou mesmo incompatibilidade com a terapêutica da infecção VIH. O acompanhamento desses doentes deve por isso ser feito não apenas pelo especialista no tratamento da infecção, mas em íntima colaboração com o médico de família do doente, que muitas vezes melhor o conhece. De referir finalmente que a incidência de certas neoplasias nos doentes com infecção VIH é superior à da população não infectada, o que se julga ser causada pela perda da imunidade que acompanha a infecção.

O objectivo deste texto foi chamar a atenção para um tema menos conhecido e para a necessidade de campanhas de prevenção fundamentalmente dirigidas aos escalões etários mais idosos.

 

 Henrique Lecour

Professor jubilado da Faculdade de Medicina do Porto