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À medida que avançamos na idade, são muitos os desafios que temos que enfrentar: a morte de familiares e amigos, problemas de saúde, adaptação à reforma, entre muitos outros.

Depressão na idade avançada: riscos e diagnóstico

À medida que avançamos na idade, são muitos os desafios que temos que enfrentar: a morte de familiares e amigos, problemas de saúde, adaptação à reforma, entre muitos outros.

É natural que nestas circunstâncias, a pessoa se sinta triste, angustiada ou ansiosa. No entanto, à medida que o tempo passa e vamos conseguindo lidar com as situações, recuperamos o equilíbrio e o bem-estar. O que se passa na depressão é diferente. A depressão é uma doença que precisa de tratamento.

A depressão é muito frequente na idade avançada. Estudos realizados em vários países mostram que 1 em cada 7 pessoas com mais de 65 anos estão deprimidas. Estima-se que 40% das pessoas com mais de 85 anos apresentem sintomas de depressão.

O risco de depressão é maior quando se sofre de uma doença. Por exemplo:

  • A depressão é três vezes mais frequente em pessoas com insuficiência renal crónica, doenças cardivovasculares ou com obstrução pulmonar crónica, do que em pessoas em boa condição física.
  • Quando a pessoa sofre de duas ou mais doenças crónicas, a depressão é sete vezes mais frequente, em comparação com pessoas saudáveis

Porque é importante diagnosticar a depressão?

De acordo com o Royal College of Psychiatrists Inglês, um diagnóstico de depressão está associado a um aumento de 50% na mortalidade, o que é comparável com os efeitos do tabaco.

A depressão não tratada é a principal causa de suicídio entre a população idosa.

A depressão quase duplica o risco de desenvolvimento de doenças coronárias e também aumenta o risco de acidentes vasculares cerebrais. Porquê? Um dos motivos é que as pessoas tendem a não cumprir a toma da medicação, ou os conselhos médicos, o que tem um impacto negativo na evolução das doenças crónicas.

A depressão pode reduzir a actividade física, levando à perda de massa muscular. Como consequência, pode aumentar a osteoporose, o risco de quedas e de fracturas.

Ao provocar alterações no sono, a depressão pode levar ao cansaço crónico, tensão muscular, dor e falta de energia, o que dificulta a realização de tarefas do dia-a-dia e diminui, por exemplo, a vontade de conviver com outras pessoas, levando ao isolamento social.

Diagnóstico da depressão na idade avançada

A depressão em pessoas com mais de 65 anos é por vezes difícil de diagnosticar:

  • Nas pessoas mais velhas, a tristeza pode não ser o principal sintoma.  Os sinais de depressão podem confundir-se com sintomas de uma doença, como por exemplo, dores no corpo, fadiga, insónia, dor de cabeça, falta de memória, dificuldade de concentração, alteração do apetite ou problemas gastro-intestinais que não são explicados por uma doença. Podem também ser sinais de depressão no idoso, o isolamento social, a ida frequente ao médico, a recusa de tratamento ou de ter alta hospitalar.
  • Por outro lado, a pessoa pode sentir-se triste, pessimista, com sentimentos de culpa, mas não querer falar sobre isso, nem mesmo com o seu médico. Por exemplo, um estudo em Inglaterra mostrou que entre as pessoas que têm depressão,  apenas 1 em 6 falavam com o seu médico de família sobre isso. Porquê? Há pessoas que pensam que estes sintomas são devidos à idade, que são inevitáveis e que portanto não podem ser tratados. Há outras pessoas que têm receio que o médico lhes receite medicação anti-depressiva, ou que aconselhe tratamento psicológico. Também acontece que o tempo das consultas é muito curto e é dada prioridade à apresentação de queixas mais físicas e não tanto de mal-estar psicológico.

Como saber se está deprimido?

É importante conhecer os sinais e procurar ajuda profissional se estiver preocupado. Há algumas perguntas que permitem despistar a presença de sintomas da depressão.

Nas duas últimas semanas, durante quase todo o tempo

  • Sentiu-se triste ou desanimado?
  • Sentiu que já não tem gosto por nada, que perdeu o interesse e o prazer pelas coisas que antes lhe agradavam?

Se respondeu que NÃO a ambas as perguntas, é pouco provável que esteja deprimido.

Se respondeu que SIM às duas perguntas, verifique se apresentou algum dos seguintes sintomas nas duas últimas semanas:

  • O seu apetite e o seu peso aumentou ou diminuiu muito? (por exemplo, mais do 4 Kg, numa pessoa de 70 Kg)?

Quase todos os dias…

  • Teve problemas de sono (dificuldade em adormecer, acordar a meio da noite, acordar cedo demais, ou dormir demais)?
  • Falou ou movimentou-se mais lentamente do que de costume, ou pelo contrário, sentiu-se agitado e incapaz de ficar sentado ou quieto?
  • Sentiu-se a maior parte do tempo cansado, sem energia?
  • Sentiu-se sem valor ou culpado?
  • Teve dificuldade em concentrar-se, ou em tomar decisões?
  • Teve pensamentos negativos como, por exemplo, pensar que mais valia estar morto, ou pensou em fazer mal a si próprio?

Se respondeu SIM a pelo menos três destes sintomas, poderá estar deprimido.

No entanto, o diagnóstico da depressão deve ser feito por um especialista, psicólogo clínico ou psiquiatra. Fale com o seu médico!

Célia Sales, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta,

Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Porto (CPUP)